Genoma do Camundongo
O camundongo (Mus musculus) é o principal modelo animal usado como base para a pesquisa de doenças que atingem o homem, mas até onde vão as semelhanças entre os dois organismos?
Para um grupo internacional de pesquisadores, o melhor entendimento da biologia do camundongo somente seria possível a partir da disponibilidade do genoma completo do roedor. E é justamente isso que acaba de ser concluído.
Em artigo publicado na PLoS Biology, cientistas que compõem o Consórcio para Sequenciamento do Genoma do Camundongo descrevem o sequenciamento e comparam o genoma resultante com o humano. Segundo o estudo, há mais diferenças genéticas do que se imaginava.
Essas grandes diferenças, apontam os pesquisadores, refletem muitas das particularidades que distinguem as duas espécies. Um quinto dos genes do camundongo é composto de cópias novas que surgiram nos últimos 90 milhões de anos.
“Nosso retrato do genoma do camundongo até então estava incompleto. Quando conseguimos juntar todas as peças que faltavam no quebra-cabeça percebemos que estávamos deixando de lado um grande número de genes encontrados apenas no camundongo, e não em humanos”, disse Leo Goodstadt, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, um dos autores do estudo.
Do outro lado, o estudo verificou que homem e camundongo têm em comum cerca de 80% de seus genes e a identificação de tais genes amplia diretamente a capacidade de empregar alvos específicos e mais adequados para o estudo de doenças humanas.
O sequenciamento permite distinguir exatamente como separar a biologia humana da biologia do camundongo. Ao preencher as lacunas deixadas por versões anteriores do genoma do roedor da família dos murídeos, os pesquisadores do consórcio conseguiram identificar muitos genes até então desconhecidos.
Na comparação com o mais recente esboço do sequenciamento que foi publicado, o genoma completo apresenta 1.1259 genes que são específicos do camundongo – não compartilhados com o homem.
Segundo o estudo, muitos dos genes agora descobertos estão evoluindo em velocidade absolutamente inusitada, provavelmente como resultado de uma espécie de combate evolucionário entre o camundongo e suas células reprodutivas.
“O grande esforço coletivo para completar o sequenciamento valeu a pena. A partir de agora, as novas descobertas que serão feitas permitirão deixar de lado equívocos que vínhamos cometendo e revelar muitos segredos da biologia do camundongo”, disse Deanna Church, dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, outra autora da pesquisa.
Fontes:
Lineage-specific biology revealed by a finished genome assembly of the mouseAgencia FAPESP
Novo Papel do Prion
Sabe-se que a proteína príon celular (PrPC), altamente expressa na superfície das células do sistema nervoso, tem papel importante no amadurecimento e na formação dos prolongamentos dos neurônios, além de protegê-los da morte celular programada – a apoptose. Ela também modula a resposta do sistema imunológico às inflamações e há evidências de que proteja as células neuronais contra a isquemia, ou falta de oxigênio.
Um novo estudo feito por pesquisadores brasileiros sugere que a expressão da PrPC também pode modular a agressividade de células tumorais. O trabalho, coordenado pela professora Vilma Regina Martins, do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, foi publicado na edição on-line da revista International Journal of Cancer.
Resultado do Projeto Temático “Papel da proteína príon celular em processos fisiológicos e patológicos”, apoiado pela FAPESP e coordenado por Vilma, o estudo teve a participação de Angelita Muras e Glaucia Hajj, também do Instituto Ludwig, de Karina Ribeiro e Regina Nomizo, do Hospital A.C. Camargo, de Sueli Nonogaki, do Instituto Adolfo Lutz, e de Roger Chammas, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
O estudo indica que a falta da PrPC na célula leva à ativação de outras proteínas que, por sua vez, tornam o tumor mais agressivo. Em um neurônio normal, por exemplo, a proteína príon tem o papel de preservar a capacidade de a célula formar axônios e conexões. Mas em uma célula tumoral, as modificações ocasionadas pela ausência da PrPC levaram a uma maior agressividade do tumor.
Fontes:
Agência FAPESPPrion protein ablation increases cellular aggregation and embolization contributing to mechanisms of metastasis
Gene da hipertensao
Identificado um gene que pode estar envolvido com a hipertensão, aumentando o risco de desenvolver pressão alta. Estima-se que muitos genes estão envolvidos na forma mais comum de pressão alta, chamada hipertensão essencial ou primária. Mas, como muitos fatores estão envolvidos com o desenvolvimento da condição – como dieta, prática de exercícios físicos e estresse –, tem sido difícil identificar genes ou grupos específicos.
No novo estudo, o STK39 (serina-treonina quinase) é o primeiro gene de suscetibilidade da hipertensão a ser descoberto com uma nova técnica conhecida como estudo de associação genômica em larga escala.
Localizado no cromossomo 2, o gene produz uma proteína que ajuda no processamento do sal pelos rins, tarefa que tem papel fundamental na determinação da pressão sangüínea.
Os pesquisadores identificaram a ligação entre o STK39 e a hipertensão após a análise do DNA de 542 membros de uma comunidade amish na Pensilvânia. Foram escaneados aproximadamente 100 mil marcadores genéticos em busca de variantes conhecidas como polimorfismos de nucleotídeos únicos que estivessem associadas com as pressões sistólica e diastólica.
Os autores da pesquisa encontraram fortes sinais de associação com variantes comuns do STK39, que, posteriormente, foram confirmados em estudos feitos com outro grupo de comunidade amish nos Estados Unidos e em quatro grupos de indivíduos causasianos nos país e na Europa.
Os amish são considerados ideais para tais estudos por serem indivíduos geneticamente homogêneos cujos antepassados vieram da Europa em meados do século 18, além de compartilharem dietas e estilos de vida semelhantes.
“Essa descoberta tem um grande potencial para aumentar nossa capacidade de criar tratamentos específicos para cada indivíduo e tratar mais eficientemente de pacientes com hipertensão. Esperamos que ajude no desenvolvimento de novas terapias para combater esse sério problema de saúde mundial”, disse Yen-Pei Christy Chang, professora de epidemiologia na Escola de Medicina da Universidade de Maryland, e principal autora do estudo.
Mas a cientista destaca que mais pesquisas são necessárias. “A hipertensão é uma condição muito complexa, que envolve diversos outros fatores genéticos, ambientais e ligados ao estilo de vida. O gene STK39 é apenas mais uma peça importante do quebra-cabeça”, disse.
Nos Estados Unidos, uma em cada quatro pessoas tem hipertensão, que pode levar à morte ou resultar em complicações como doenças cardiovasculares, derrame e problemas renais.
Fontes:
Whole-genome association study identifies STK39 as a novel hypertension susceptibility gene. Wang et al. PNAS published online before print December 29, 2008, doi:10.1073/pnas.0808358106.
Agencia FAPESP
Teste de DNA em minutos
GenomiCalc, um software que propõe novos modelos de cálculos matemáticos para a determinação dos resultados em testes de DNA foi desenvolvido pela empresa Genomic Engenharia Molecular.
Com o programa, que pode ser usado por meio de uma conexão na internet, os resultados são conhecidos em apenas cinco minutos. Os resultados da investigação de vínculo genético por DNA são baseados em cálculos estatísticos de probabilidade.
O produto, que teve como base a tese de doutorado do engenheiro Fábio Nakano, defendida no Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (USP), foi financiado pelo programa Pesquisa Inovativa na Pequena e Microempresa (PIPE) da FAPESP.
De acordo com informações do portal Inovação Unicamp, os cálculos no software podem ser realizados até quando não é possível coletar material do suposto pai, quando a análise passa a ser feita com material genético de outro parente próximo.
Nesse caso, em vez de os cálculos serem feitos com pai, mãe e filho, são analisadas as informações de parentes de primeiro grau. O teste de paternidade é feito retirando-se o DNA das células presentes nas amostras de sangue dos supostos pai e filho, além de poder ser feito a partir de outros materiais biológicos como saliva ou um fio de cabelo.
As gotas de sangue são depositadas em um papel absorvente para a extração e análise do código genético, no qual são analisados os lócus pré-determinados por meio da técnica chamada polymerase chain reaction (PCR) ou reação em cadeia de polimerase. Em seguida, de cada lócus são isoladas as duas metades (alelos), sendo que para a identificação de paternidade o ponto de partida são os alelos presentes no filho.
Partindo do pressuposto de que a mãe indicada é de fato mãe biológica do filho, um dos alelos de cada par deste último precisa coincidir com os dela, enquanto os outros alelos devem coincidir com os do pai. Se isso não ocorrer, a paternidade é excluída com certeza de 100%.
O software permite que os dados retirados do seqüenciador de DNA sejam calculados rapidamente e se a informação genética for suficiente, o resultado pode chegar a 99,9% de certeza.
Fontes:
Inovação UnicampGenomiCalc Cálculo Online de Vínculo GenéticoAgencia FAPESP
Genoma do mamute sequenciado
É o primeiro genoma de um animal extinto: o mamute-lanoso acaba de ter seu código genético seqüenciado. Trata-se da última espécie do gênero Mammuthus, parente do elefante atual que deixou de existir há cerca de 10 mil anos, durante a última Era do Gelo.
O resultado do trabalho de um grupo de cientistas dos Estados Unidos e da Rússia foi publicado na edição atual da revista Nature. Partes do genoma mitocondrial do animal haviam sido seqüenciadas anteriormente, mas não o seu genoma nuclear.
Por meio do DNA extraído de amostras do pêlo do animal preservado no gelo, os pesquisadores conseguiram montar o genoma contido no núcleo das células do Mammuthus primigenius, que por mais de 100 mil anos viveu em regiões frias no hemisfério Norte.
Por permitir remoção mais fácil de bactérias e fungos, foram analisados pêlos, e não ossos. Outra vantagem é que há menos danos no DNA antigo em pelos, porque tais estruturas envolvem o DNA como se fossem recipientes plásticos, protegendo o ácido desoxirribonucléico da degradação e da exposição ao ambiente.
No estudo, os autores usaram amostras de dois mamutes congelados e encontrados na Sibéria, um com idade estimada em 60 mil anos e outro de 20 mil anos. Embora ainda faltem peças do quebra-cabeça, os cientistas estimam ter seqüenciado mais de 70% do genoma completo do animal.
Os cientistas suspeitam que o genoma completo do mamute-lanoso tenha pouco mais de 4 bilhões de pares de base, que é o tamanho do genoma do elefante africano moderno. Embora o estudo tenha resultado no seqüenciamento de 4 bilhões de pares de base, os autores calculam que, do total, 3,3 bilhões – um pouco mais do que a quantia dos humanos – sejam do mamute, com o restante pertencendo a outros organismos, como bactérias e fungos, que contaminaram as amostras.
Para identificar quais seqüências pertenciam ao mamute ou a outros organismos, o grupo usou uma versão preliminar do genoma do elefante africano, projeto conduzido por pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e da Universidade Harvard.
“Apenas após a conclusão do genoma do elefante africano conseguiremos saber ao certo quanto do genoma do mamute-lanoso foi seqüenciado”, disse Webb Miller, professor de biologia, ciência da computação e engenharia da Universidade Penn State, principal autor do estudo.
Segundo a análise inicial, o genoma do mamute difere do genoma do elefante africano moderno em apenas 0,6%. A diferença é cerca da metade da observada entre o homem e o chimpanzé, apesar de o mamute e o elefante terem divergido por volta do mesmo tempo – ou mesmo antes – do que humanos e chimpanzés.
“DNA antigo – obtido de fósseis com até 100 mil anos de idade – é altamente fragmentado, está presente apenas em pequenos traços residuais e está geralmente inundado de DNA de bactérias e fungos. Portanto, a idéia de seqüenciar um genoma completo de uma espécie extinta era, até há pouco tempo, impensável, uma vez que por 30 anos o único método de grande escala disponível – o método de seqüenciamento Sanger [desenvolvido pelo Instituto Sanger, na Inglaterra] –, não se mostrava adequado para a tarefa”, disse Michael Hofreiter, do Instituto Max Planck para Antropologia Evolucionária, na Alemanha, em comentário sobre o estudo na mesma edição da revista.
Mas uma novidade entrou em cena em 2005. Conhecido como método 454, ou piroseqüenciamento, ele permitiu ampliar em várias vezes a magnitude do processo, mais rapidamente e com menor custo. Foi a tecnologia usada agora no seqüenciamento do mamute.
Outros métodos surgiram posteriormente e, com o auxílio de modernos sistemas computacionais, tornaram possível seqüenciar bilhões de pares de base de dados de uma única vez.
O problema é que essas novas tecnologias, também chamadas de shotgun, resultam também em altas taxas de erros. A alternativa, para seqüenciar um genoma completo de um organismo sem erros, é realizar várias operações, de modo a poder subtrair as falhas. Segundo os autores do novo estudo, tal cenário deverá ser possível em poucos anos.
Fontes:
Sequencing the nuclear genome of the extinct woolly mammoth. Webb Miller et al. Nature 456, 387-390 (20 November 2008).
Agencia FAPESP
Genes e Comportamento Social
O DNA determina em boa medida quem são os indivíduos e como eles lidam com os outros. Mas, de acordo com uma pesquisa realizada por cientistas da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, nos Estados Unidos, estudos recentes sobre animais sociais – como aves e abelhas – estão dando força à idéia de que, por meio do cérebro, os genes e o comportamento social são uma via de mão dupla, influenciando-se mutuamente.
A pesquisa de revisão, coordenada por Gene Robinson, do Departamento de Entomologia da Universidade de Illinois, foi publicada em matéria de capa da edição desta sexta-feira (7/11) da revista Science. De acordo com Robinson, o estado atual das pesquisas permite que os cientistas partam para a construção de uma explicação molecular para o comportamento social.
De acordo com os cientistas, a informação social é capaz de alterar a expressão genética no cérebro, influenciando o comportamento. Por exemplo, o canto do tentilhão ou zebra-finch (Taeniopygia guttata) macho induz em outros machos a expressão do gene egr1em uma região específica do cérebro dedicada à audição. Essa expressão genética está especificamente ligada à importância social do sinal – isto é, indica se o som vem de um indivíduo conhecido ou de um potencial intruso –, indicando que a resposta genética ajuda o pássaro a reconhecer e reagir a mudanças no ambiente social.
Por outro lado, a variação genética influencia a função cerebral e o comportamento social, como acontece no caso da drosófila, ou mosca-da-fruta (Drosophila melanogaster). Cientistas identificaram uma variação genética específica que afeta o ritmo do som de acasalamento do animal, que conseqüentemente influencia o comportamento reprodutivo.
Segundo os cientistas, graças aos recentes seqüenciamentos de genomas de vários animais sociais – incluindo as abelhas e os tentilhões – e às novas tecnologias como os microarrays, que permitem vislumbrar a atividade de milhares de genes de uma só vez, os neurocientistas gradualmente estão compreendendo que "existe uma relação dinâmica entre genes e comportamento", disse Robinson. "O comportamento não está gravado no DNA”, afirmou ele.
Além de Robinson, participaram do estudo o professor de biologia da Universidade de Stanford Russell Fernald e o professor de desenvolvimento celular e biológico e neurociências David Clayton, também da Universidade de Illinois.
Segundo Robinson, uma pesquisa coordenada por Clayton em 1992 foi um dos marcos fundamentais para os estudos nessa área. Naquele trabalho, a equipe do cientista descobriu que a expressão do gene egr1 aumenta no cérebro de tentilhões e canários quando eles ouvem um canto novo emitido por um macho da mesma espécie.
O achado não foi inédito: estudos anteriores haviam demonstrado que os genes acendem e apagam quando um animal é treinado para desempenhar uma tarefa em laboratório, segundo Robinson. Mas, quando a equipe de Clayton encontrou essa alteração na expressão gênica em resposta a um sinal social, chamou a atenção para as interações sociais poderosas que podem alterar a expressão genética no cérebro.
Em outro trabalho, Robinson utilizou microarrays para estudar o fenômeno em larga escala e verificou que milhares de genes “ligam” e “desligam” nos cérebros das abelhas em resposta a estímulos sociais.
Um desses genes, conhecido como for (para forrageamento, ou busca de alimento), foi descoberto inicialmente em moscas drosófilas por Marla Sokolowski, da Universidade de Toronto, no Canadá. Esses insetos carregam versões diferentes do gene for para diversos tipos de comportamento de forrageamento. Cada versão dá ao seu portador uma vantagem em certos comportamentos nas condições ambientais.
No estudo publicado em 2002, Robinson e sua equipe relataram que a expressão do for de fato aumentou no cérebro das abelhas enquanto elas se desenvolviam como forrageiras. A manipulação de sua expressão levava as abelhas a forragear precocemente.
Os pesquisadores descobriram também que os fatores sociais, sob a forma de sinais químicos conhecidos como feromônios, induziam a esse aumento do for. As abelhas forrageiras produzem um feromônio que sinaliza para as abelhas mais jovens que já existe uma quantidade de indivíduos suficiente exercendo essa função. Se algumas forrageiras são removidas da colméia, algumas abelhas jovens se desenvolvem precocemente como forrageiras.
"A constatação da idéia de que as diferenças na expressão genética podem ocorrer ao longo de escalas de tempo muito diferentes ajuda a compreender algumas das complexas relações entre genes, cérebro e comportamento. Todos esses elementos interagem", disse Clayton. "A experiência está sempre voltando para o nível do DNA”, declarou.
Fontes:
Genes and Social Behavior. Robinson et al. Science 7 November 2008. Vol. 322. no. 5903, pp. 896 - 900.
Agencia FAPESP
Funcoes para o DNA Lixo
Resultados de uma análise comparativa dos genomas do homem, do chimpanzé, do macaco rhesus e de outros primatas indicam que a evolução humana pode ter sido promovida não apenas por uma seqüência de mudanças genéticas, mas por transformações em áreas do genoma que até então se achava que não serviam para nada.
Segundo os pesquisadores, essas mudanças foram responsáveis pela ativação de genes no polegar e no dedão do pé primordiais. “Identificamos um contribuinte genético potencial para as diferenças morfológicas fundamentais entre humanos e os demais primatas”, disse James Noonan, da Escola de Medicina da Universidade Yale, um dos autores do estudo publicado na edição desta sexta-feira (5/9) da revista Science.
Há tempos que os cientistas suspeitavam que mudanças na expressão genética contribuíam para a evolução humana, mas encontravam dificuldades para estudar tais alterações, pois a maioria das seqüências que controlam os genes não havia sido identificada.
Nos últimos anos, descobriu-se que regiões que não são responsáveis pela codificação no genoma, que a princípio foram chamadas de “DNA lixo”, na realidade continham milhares de elementos reguladores que atuavam como “chaves” para ligar ou desligar genes.
Uma indicação da importância biológica do DNA lixo é que muitas dessas seqüências se mantiveram semelhantes (ou “conservadas”) mesmo em espécies distantes de vertebrados, como entre o homem e o frango. Estudos funcionais recentes indicaram ainda mais: que algumas dessas seqüências controlam os genes responsáveis pelo desenvolvimento humano.
Os autores do estudo vasculharam as extensas regiões não codificantes do genoma humano para identificar as seqüências reguladoras cujas funções podem ter mudado durante a evolução do homem.
Noonan e colegas procuraram por seqüências com mais pares de base em humanos do que em outros primatas. Verificaram que a seqüência que se desenvolveu mais rapidamente dentre as identificadas, denominada HACNS1, mostrou-se altamente conservada entre espécies de vertebrados, mas tinha variações acumuladas em 16 pares de base desde a divergência do homem e do chimpanzé, estimada em 6 milhões de anos atrás.
A descoberta foi considerada uma grande surpresa, uma vez que os genomas do homem e do chimpanzé são muito semelhantes. Segundo os autores do estudo, os resultados fornecem forte evidência, ainda que preliminar, de que mudanças funcionais no HACNS1 podem ter contribuído para adaptações no polegar, pulso, pé e tornozelo humanos, que representam vantagens críticas para o sucesso evolucionário da espécie.
Entretanto, os cientistas destacam que ainda desconhecem se o HACNS1 causa mudanças na expressão genética no desenvolvimento de membros no homem ou se essa seqüência seria capaz de induzir o desenvolvimento de membros similares ao ser introduzida no genoma de outros vertebrados, como no camundongo.
Fontes:
Human-specific gain of function in a developmental enhancer. Prabhakar et al. Science 5 September 2008: Vol. 321. no. 5894, pp. 1346 - 1350.
Agencia FAPESP
Software Simulador neuromuscular
A novidade simula etapas fundamentais do processo de ativação dos músculos, desde os comandos cerebrais que ativam a medula espinhal até o envio desses sinais para a musculatura. O projeto foi desenvolvido como trabalho de doutorado por Rogério Cisi, orientado por André Fabio Kohn, professor do Laboratório de Engenharia Biomédica.
A ferramenta está voltada a pesquisadores que estudam, por exemplo, doenças que afetam o sistema nervoso e a musculatura. “O simulador representa medidas não invasivas realizadas em laboratório ou na clínica. A ferramenta permite analisar as causas neuronais e sinápticas que geraram uma dada atividade elétrica ou mecânica, incluindo a avaliação de reflexos medulares em função da atividade de todos os neurônios da medula espinhal e de todas as fibras musculares envolvidas nesse processo”, explicou Kohn.
Devido à complexidade do sistema neuromuscular humano, no entanto, o uso do simulador em sua plena potencialidade exige conhecimentos específicos de neurofisiologia pelos usuários, que podem inclusive modificar os parâmetros de simulação do sistema para o estudo de diferentes tipos de doenças.
“O ReMoto é uma poderosa ferramenta para testes de hipóteses. O pesquisador deve impor valores de parâmetros apropriados para a patologia em estudo, com base em conhecimentos obtidos de experimentos laboratoriais”, indicou.
A ferramenta foi desenvolvida na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e está disponível gratuitamente na internet em
http://remoto.leb.usp.br/remoto/index.htmFontes:
Agencia FAPESP
Alga contra HIV
Algas marinhas do litoral brasileiro poderão vir a ser uma importante fonte para o tratamento e a prevenção da Aids nos próximos anos.
Três substâncias – de um total de 22 testadas –, obtidas a partir dessas algas, mostraram promissora atividade inibitória do processo de replicação do vírus HIV em suas três fases: na transcriptase reversa, na protease e, o mais importante, na morfogênese, o que nenhum medicamento hoje existente no mercado faz.
Por essa razão, o Brasil poderá ter, em breve, seu primeiro anti-retroviral, reforçando o grupo das 17 drogas (todas importadas) que compõem o protocolo de tratamento do Ministério da Saúde. O anúncio foi feito por pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), da Fundação Ataulpho de Paiva (FAP) e da Universidade Federal Fluminense (UFF) na sexta-feira (29/8).
“Esta poderá ser uma nova alternativa no arsenal terapêutico contra a Aids, sobretudo para casos de resistência aos medicamentos tradicionais”, afirmou o imunologista Luis Roberto Castello Branco, chefe do Laboratório de Imunologia Clínica do IOC.
Nos testes pré-clínicos –in vitro (em tubos de ensaio e com tecidos humanos) e in vivo (camundongos) – uma das substâncias, em particular, identificada a partir de uma alga encontrada no atol das Rocas, apresentou taxa de eficácia em sua ação anti-retroviral de 98%, mesmo se aplicada em baixas concentrações.
Embora os três compostos tenham demonstrado atividade inibidora da transcriptase (enzima que age na primeira fase do ciclo replicativo viral), essa mesma substância se revelou eficaz na inibição da protease (que age no final do ciclo replicativo) e na morfogênese (fase final, quando há a maturação viral). Isto é o que, caso seja transformada em medicamento, fará com que o fármaco brasileiro se destaque entre os atualmente disponíveis.
“Diferentemente dos inibidores disponíveis atualmente, percebemos que essa substância tem uma função de atingir os três alvos: a transcriptase, a protease e a morfogênese. Ou seja, ela bloqueia a fase inicial e a final”, explicou o virologista Cláudio Cirne, da Fundação Ataulpho de Paiva, à Agência FAPESP.
“A grande falha dos medicamentos atuais é que eles não conseguem bloquear o escape do vírus, devido à sua capacidade de mutação. Então, se existe uma substância que bloqueia a fase final, inibindo também a morfogênese, sua possibilidade de replicação será mínima. O bloqueio da morfogênese faz com que o vírus fique em uma forma completamente desorganizada em sua estrutura”, afirmou.
O pesquisador observa, no entanto, que o bloqueio da morfogênese não significa a erradicação do vírus no organismo. “O HIV é um vírus com forte capacidade de mutação, por isso ele não vai deixar de existir”, salientou.
Além da ação anti-retroviral, a substância mais promissora das três identificadas apresentou toxicidade praticamente nula. Esta é outra característica que a diferencia dos compostos atuais, os quais, embora eficazes, são extremamente tóxicos e caros.
O desenvolvimento de um anti-retroviral nacional representará também uma alternativa para a dependência estrangeira. O orçamento de 2008 previsto pelo Programa Nacional de DST/Aids é de R$ 1,3 bilhão, dos quais pouco mais de R$ 1 bilhão é destinado aos gastos com medicamentos anti-retrovirais. De acordo com os pesquisadores, a economia poderá ser de 5% a 10%, o equivalente a R$ 50 ou R$ 100 milhões.
Os testes clínicos devem ter início em 2010, na África – continente que tem os mais elevados índices de incidência da doença no mundo – e durar quatro anos. Segundo os cientistas, as diferenças nas subtipagens virais entre Brasil e África não serão significativas para os testes.
“Não estamos desenvolvendo uma vacina, e sim estudando inibidores da replicação viral. Então, fazer o uso do AZT, por exemplo, em um isolado no Brasil e em um isolado na África é a mesma coisa. A enzima, responsável pela replicação, é a mesma aqui e lá”, disse Cirne.
Microbicida
As três substâncias abriram outra possibilidade para a equipe de pesquisadores do IOC, FAP e UFF: o desenvolvimento de um microbicida de aplicação local. O microbicida é voltado para uso vaginal, permitindo às mulheres que se protejam da infecção pelo vírus HIV mesmo sem o consentimento dos parceiros.
Estudos têm demonstrado a necessidade de uma negociação no uso do preservativo masculino. “Muitos homens não querem usá-lo e, com isso, acabam infectando suas mulheres”, lembrou Castello Branco. Segundo ele, os testes para o uso microbicida das substâncias à base de algas foram exitosos.
“Uma das três substâncias já foi testada em explantes [fragmentos de cérvix uterino humano infectados pelo HIV, mantidos em cultura em laboratório] na Universidade Saint George de Londres e em nosso laboratório no IOC, e está entre as 30 candidatas aceitas pela Aliança pelo Desenvolvimento de Microbicidas, sendo a único da América Latina no grupo”, disse o pesquisador. É também a única à base de algas marinhas.
A grande questão que preocupa os cientistas, no entanto, é que a quantidade dessas algas existentes no Oceano Atlântico, entre a Carolina do Norte, nos Estados Unidos, e o Rio de Janeiro, é limitada. “Por isso, estamos investigando outras possibilidades de fontes e de metodologias, como a síntese orgânica em laboratório”, disse Castello Branco.
Os nomes das algas ainda estão guardados em sigilo. O estudo está em fase de patenteamento. Se desenvolvidos, os medicamentos anti-retrovirais e o microbicida brasileiros à base de algas marinhas vão representar mais uma esperança para as 33,2 milhões de pessoas infectadas com o vírus HIV no mundo, que teve 2,5 milhões de novos casos em 2007. No mesmo ano, 2,1 milhões morreram infectados. Na América Latina, são 1,6 milhão de pessoas vivendo com Aids, um terço dos casos somente no Brasil.
Fontes:
Agencia FAPESP
Novo teste para esquistossomose
O Helm Teste é o novo produto da linha de reativos para diagnóstico do Instituto de Tecnologia em Imunológicos (Biomanguinhos) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Baseado na tecnologia do método Kato-Katz, o teste é recomendado pela Organização Mundial de Saúde e serve para fazer exame parasitológico de fezes. O produto foi lançado no 11º Simpósio Internacional sobre Esquistossomose, que termina nesta sexta-feira (22/8), em Salvador.
O método Kato-Katz dispensa água, luz ou qualquer acessório para preparar lâminas, que podem ser conservadas em temperatura ambiente até dois anos.
O exame das lâminas é possível logo após a sua preparação ou meses depois – se conservado em lugar seco, fechado e protegido de insetos – em um laboratório. Isso permite realizar testes em regiões distantes do país sem infra-estrutura laboratorial.
Segundo a Fiocruz, o produto, que tem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), possibilita melhor diagnóstico e controle de qualidade com as lâminas, preparo mais fácil e exame parasitológico de fezes na determinação qualitativa e quantitativa de ovos de helmintos. São revelados ovos de Ascaris, Schistosoma, ancilostomídeos, Trichuris, Taenia e com menos freqüência os de Enterobius e Strongyloides.
A utilização do Helm Teste permitirá a identificação mais rápida da incidência de enfermidades como a esquistossomose. O Ministério da Saúde, por meio de Biomanguinhos, distribuirá, inicialmente, kits em seus programas de controle e combate à esquistossomose. O objetivo é contribuir para a melhoria dos padrões da saúde pública brasileira.
Fontes:
Fundação Oswaldo CruzAgencia FAPESP